Texto do jornalista Diego Lage

Não é mero ato de formalidade afirmar que um homem cumpriu plenamente sua missão ao se despedir da terra após escrever uma história que merece ser contada no céu.

Tenho certeza que, na manhã desta terça-feira, o dial do além entrou em cadeia para informar a chegada de um filho de Belém.

Antônio Julio da Imperatriz Salles nasceu em Belém, no Pará, mas não me assustaria se dissessem ser filho de Belém, na Cisjordânia ocupada, onde Jesus nasceu. Sua voz carregava o timbre calmo e ao mesmo tempo profético de uma anunciação – tal qual o anjo Gabriel ao transmitir a Maria que daria à luz o Salvador.

A biografia desse marajoara se confunde com tantas trajetórias de infinitos cearenses que vestem, de corpo e alma, as três cores do Fortaleza Esporte Clube.

Leão ao microfone, em todos os sentidos, foi – e provavelmente será eternamente – o único locutor que viu um mesmo clube ser eliminado na primeira fase da última divisão de um campeonato nacional e chegar à fase final de uma competição continental.

Ninguém verá ou ouvirá que um time morreria na Série C e quase matou gente de inveja ao brigar pelo título da Sul-Americana jogando de igual para igual contra qualquer adversário para cima ou para baixo da Linha do Equador.

Julio narrava a vida do Fortaleza, talvez sem perceber, sentenciando os passos de sua própria caminhada: trágica em cada derrota e gloriosa em toda vitória, sempre humana e popular – todavia, como são a arte e os gênios dela surgidos.

Entre o sagrado e o profano, como se o futebol fosse A Divina Comédia, testemunhou o Tricolor de Aço conhecer o Inferno, atravessar o Purgatório e vislumbrar o Paraíso.

Pelo amor de Deus, não façam um minuto de silêncio. A bela voz que tanto animou e entristeceu nossa existência merece uma estrondosa salva de palmas.