Maior e melhor treinador da história do Fortaleza, Juan Pablo Vojvoda foi demitido nessa segunda-feira, 14 de julho. Foram mais de 300 jogos à frente da equipe tricolor, com títulos marcantes, conquistas inesquecíveis e uma relação de respeito e amor que vai ficar pra sempre na memória do torcedor e do clube leonino.

No entanto, quais fatores foram determinantes para a diretoria do Fortaleza por fim ao ciclo do técnico argentino, que mais vezes comandou o time em todos os tempos e estava em sua 5ª temporada no Pici?

Eu conversei com algumas pessoas de dentro do clube para tentar saber o que aconteceu, e apurei alguns pontos decisivos para encerrar um dos capítulos mais bonitos e marcantes da história centenária do Fortaleza.

Resultados
Assim como em qualquer outro clube, os resultados são decisivos para a permanência de jogadores, dirigentes e claro a comissão técnica.

Vojvoda já sofria pressão em seu trabalho desde o Campeonato Cearense deste ano. A perda do título estadual e os 3 jogos sem vencer o rival Ceará já haviam dado sinais à cúpula do clube e aos líderes do elenco de que era necessário mudanças no estilo do treinador.

Aí, vieram derrotas marcantes como a diante do CRB, Racing e o empate e a atuação pífia diante do Retrô, em Pernambuco, na estreia na Copa do Brasil, que fez o time completar 9 jogos sem vitória e amplificaram ainda mais o sinal de que Vojvoda não estava conseguindo extrair do elenco o “algo mais”.

Só quem o empate com o São Paulo fora de casa e as goleadas sobre Colo-Colo e Juventude fizeram a água baixar, mas logo voltou a subir com força total com a eliminação na Copa do Brasil, em casa, para o Retrô, e a famigerada derrota para o Cruzeiro em que não entrevista coletiva.

A crise chegava ao ápice. Vojvoda, então, chegou a entregar o cargo, mas a diretoria não aceitou. Era aguardado que uma possível classificação à próxima fase na Libertadores amenizasse tudo.

O Fortaleza até conquista a vaga às Oitavas de Final da Libertadores, mas porque o Bucaramanga perdeu o jogo no Chile para o Colo-Colo. O time perdeu para o Racing em mais uma atuação abaixo.

A ideia naquele momento já era que a parada para a Copa do Mundo chegasse o mais rápido possível para começar os ajustes.

Chega, então, Sérgio Papellin, para ajudar o departamento de futebol a encontrar uma solução, seja dispensar jogadores, seja fazer Vojvoda mudar conceitos.

Mas a goleada diante do Flamengo e a derrota para o Santos são demais. Dirigentes conversam com alguns jogadores para tomarem uma medida drástica, mas os atletas consultados defendem Vojvoda.

A diretoria, então, mantém o treinador. Aqui, um parêntese, Vojvoda só permaneceu porque é o maior treinador da história do clube, se fosse qualquer outro teria sido demitido.

Os dirigentes acreditam que, com a parada para a Copa do Mundo, comissão técnica e jogadores possam descansar, recarregar as energias e com isso reencontrar o caminho das vitórias.

Só que a eliminação (nenhuma surpresa) da Copa do Nordeste para o Bahia na Fonte Nova impulsionou o Clássico-Rei a ser o divisor de águas para o bem ou para o mal.

A derrota para o maior rival com a atuação vexatória, sem ter dado 1 chute a gol, o tabu de 9 jogos sem vencer o Ceará e ainda a permanência na zona de rebaixamento foram demais para a diretoria leonina, que não teve dúvidas de que o momento era esse para demitir o maior treinador da história do Fortaleza.

Treinamentos
Durante todo o período de crise, funcionários, jogadores e dirigentes perceberam que a metodologia, o conceito e a intensidade dos treinamentos não eram os mesmos. Alguns atletas notavam e estranhavam, mas preferiam não criar caso.

Apesar de alguns avisos e de várias tentativas de alertar Vojvoda de que as atividades já não tinham o mesmo efeito, o treinador argentino e sua comissão seguiam acreditando que estava tudo bem e que os resultados iriam aparecer. Até mesmo o fator motivacional, algo até então considerado ponto forte da comissão técnica, já não conseguia mais impactar o elenco.

A parada durante a Copa do Mundo era aguardada por todos para que a comissão técnica pudesse rever alguns conceitos, mudar a estrutura dos trabalhos, inovar questões táticas, mas não houve alterações e os resultados nos 2 jogos seguintes contra Bahia e Ceará foram a prova de que o treinador não conseguia mais extrair o “algo mais” dos atletas.

Blindagem
As derrotas acachapantes contra Altos, Sousa, Flamengo, Cruzeiro, a eliminação diante do Retrô não tiveram a cobrança à altura do que foi apresentado em campo. A blindagem ao elenco, sempre com o discurso de que acreditava e confiava no elenco, fazia com que Vojvoda não apontasse para quem também tinha responsabilidade pelo péssimo momento em que o clube vivia.

Até mesmo depois de Papellin afirmar que Dylan Borrero seria negociado, o treinador fez questão de dizer que contava com o atacante, após o jogo contra o Santos.

As escalação de jogadores, que eram preteridos em jogos, e depois eram relacionados e até escalados como titulares também contribuíram para que Vojvoda resguardasse determinados jogadores.

Fim de Ciclo
Creio e afirmo que Vojvoda não é o único culpado pelo péssimo momento em que o Fortaleza passa. O treinador argentino tem sua parcela de responsabilidade, assim como jogadores e a diretoria. No entanto, o menos traumático, principalmente do ponto de vista financeiro, é demitir o treinador. E com os fatores acima descritos, creio que foi a alternativa da diretoria.

Saudade
Independentemente da demissão, Vojvoda deixou um legado eterno no Pici. As mensagens de despedida de funcionários, ex-jogadores e jogadores do Fortaleza são a prova de que o treinador não foi apenas um técnico de futebol, mas um ser humano ímpar que passou pelo clube e vai deixar uma enorme saudade.