O seu Maurício, Pai do goleiro Felipe Alves, era, sim, apegado ao filho. E da mesma forma, o filho era apegado ao Pai. Pra esclarecer logo àqueles que em um momento desses ainda tentam minimizar ou menosprezar a dor de um filho que perde um Pai, com menos de 60 anos, por covid.

A grandiosidade de Felipe ultrapassa todos os limites do impacto de saber horas antes do Clássico contra o Ceará que o Pai havia morrido. Seu Maurício pegou Covid. Assim como a mãe de Felipe. Ambos tiveram de ser internados. A Mãe se recuperou, mas o Pai não suportou.

A notícia chegou ao goleiro do Fortaleza com um pedido: o Pai queria que ele jogasse. A dor de não poder mais ver aquele que ama machucava ainda mais o coração com o pedido. Mas o luto dava lugar a honrar o desejo do seu Maurício.

Em silêncio, a grandiosidade de Felipe seguia de uma forma impressionante. Segurou os sentimentos e não contou para ninguém. Não queria abalar o grupo momentos antes de um jogo tão importante.

No entanto, a notícia chegou para o treinador Enderson Moreira. Acreditem: dentro do ônibus a caminho para o Castelão. O técnico leonino chamou o Presidente Marcelo Paz. Ambos conversaram isolados e decidiram falar com o goleiro somente na Arena. Chegando aos vestiários, Felipe confirmou a notícia e mostrava segurança de que queria jogar.

O roteiro seguiu conforme o pedido de Felipe e o desejo do Seu Maurício. Paz e Enderson optaram por não contar a ninguém e esperar que o goleiro revelasse. Nem antes, nem durante e nem depois do jogo, muito menos no intervalo, Felipe Alves demonstrou qualquer instabilidade. Pelo contrário, o Homem de Gelo, como é carinhosamente apelidado pela torcida, fez ao menos 3 grandes defesas que garantiram o zero a zero no placar. Foi escolhido o melhor em campo.

Eu estava no Castelão e fiquei várias vezes olhando para Felipe com o intuito de pegar algum detalhe para colocar na minha matéria sobre o que poucos (não) viram no Clássico. Não consegui perceber nada. Parecia um Clássico-Rei como outro. Felipe gritou bastante, orientou, pegava sua toalhinha para se enxugar, bebia água, saiu como um dos últimos para o intervalo, foi o primeiro a voltar e cumprimentou normalmente àqueles que foram falar com ele. Sem nenhum abalo ou mudança de temperamento.

Na entrevista, pós-jogo, para receber o troféu de melhor da partida, nenhuma menção ao luto. Felipe Alves seguia firme e forte. Um profissionalismo que não dá para medir e nem comparar.

Só que nos vestiários, não foi possível segurar as lágrimas com os discursos do Presidente Marcelo Paz e do treinador Enderson Moreira. O goleiro desabou em choro. O fardo já estava pesado demais ao segurar tudo aquilo. Botou pra fora e foi efusivamente abraçado por todos, arrancando lágrimas dos companheiros.

Há uma frase do jornalista Alan Neto sobre esse momento: “Quando a gente perde o Pai, a gente perde o norte. A gente perde a nossa referência. É como se não tivéssemos a quem recorrer. É preciso respeitar e principalmente apoiar alguém que perde o Pai”.

Toda solidariedade e respeito ao Felipe Alves. E deixo a ele um pequeno trecho da canção “Raridade”, de Anderson Freire: “O Mundo pode até fazer você chorar, mas Deus te quer sorrindo”.

📸 Divulgação/Fortaleza