Esta publicação só é possível graças a todos aqueles que acreditaram neste projeto

16º Dia em Doha foi realmente impactante. A terça-feira reservava o tão aguardado 1º jogo em que eu veria Cristiano Ronaldo ao vivo e ainda poderia encontrá-lo na zona mista e até entrevistá-lo. Fui para o Centro de Mídia (CMQ) e, logo ao chegar, recebi a notícia da morte da minha Avó (Mãe do meu Pai) e mexeu com o meu emocional.

Mesmo já sabendo que ela não estava bem e que poderia acontecer a qualquer momento. Mas uma pessoa que tenha coração sabe que a morte de alguém da família, próxima e querida causa um aperto no peito. Aí, você eleva esse aperto para quando é a matriarca da família, a Mãe do meu Pai. Avó a gente nem precisa apresentar, né? A história dela carrega um legado enorme para todos que a conheceram e conviveram. E eu fui um dos grandes privilegiados.

Então, eu aqui de longe, sozinho, no outro lado do planeta, acabava criando fantasias, receios, medos e começava a refletir e rememorar muitas lembranças e aprendizados. Eu fiquei sem saber o que fazer, se seguia o trabalho, ou se vivia o luto.

Conversei com o meu Pai, com minha Mãe, minha esposa. Refleti e pensei várias vezes e decidi continuar o trabalho. Afinal, não poderia fazer nada, nem mesmo dar um abraço no meu pai ou confortar meus familiares. Creio que se minha Vó estivesse viva, ela mesmo diria para eu seguir trabalhando e que rezasse por ela. Foi o que eu fiz.

No CMQ, os colegas foram chegando e obviamente a pergunta inevitável ao encontrar alguém. “Boa tarde, Kempes. Como você está?”. No primeiro contato, eu resolvi falar até para desabafar e ver a reação do querido Jorge Luiz Rodrigues, assessor da Conmebol. Foi ótimo. Fiquei aliviado, saiu o que estava preso, e ele tinha uma história de vida belíssima. Assim, como eu, ele é muito religioso, então, foi a melhor conversa possível.

Consegui terminar a 1ª matéria, após um enorme período (natural, eu creio). Depois, fui almoçar, encontrei outro colega, novamente falei, mais um contato com outro companheiro de mídia e já dava pra sentir como seria o dia.

Resolvi ir para o treino aberto da Seleção, como decidi e achava que minha vó queria: continuar o trabalho. Fiz outras matérias. Depois, com 2 colegas, Guilherme Pinheiro e Marcelo Alencar, fomos de metrô para o jogo Portugal x Suíça. Durante todo o trajeto, com ambos numa alegria sem tamanho para ver Cristiano Ronaldo, eu tentava mostrar não abatimento.

Chegando ao Estádio, optei por ficar no centro de imprensa, fiz um pequeno lanche, vi o final do jogo Marrocos x Espanha, em que os africanos ganharam nos pênaltis e avançaram às quartas de final. Depois, sentei e bateu um cansaço. Creio que o mental não estava bem e pra completar, vi que o Cristiano Ronaldo não seria titular, aí imaginei que ele não entraria em campo e nem passaria pela zona mista.

Fui tentar fazer outra matéria para buscar outro foco. Assim que terminei, já com a partida rolando, quase que vou embora. Eu estava exausto. A tristeza, a falta de um abraço, de um palavra de incentivo ou de conforto cresciam, assim como os pensamentos negativos. Mas algo me dizia para eu ficar.

Então, resolvi ir lá para a Tribuna de Imprensa. Já estava 2×0 para Portugal. Sentei no meu lugar, e a atmosfera do Estádio me ajudou a me sentir melhor. Cristiano Ronaldo entrou, a torcida fez uma festa espetacular, foi algo muito lindo de ver.

Terminado o jogo, eu fiquei um bom tempo depois ainda na tribuna de imprensa avaliando se iria para a zona mista. Afinal, já passava da meia-noite, eu estava no limite físico e mental e ainda por cima tinha a certeza que Cristiano Ronaldo nem sequer apareceria. Mas outra vez, algo me dizia para ir.

Chegando à zona mista, a oficial da Fifa avisou que eram 3 locais e estavam divididos em idiomas português, francês e inglês e que não era permitido nem fotos e nem selfies. Passou primeiro Bruno Fernandes. Foi uma correria daquelas. Depois, o Primeiro Ministro de Portugal, António Costa, apareceu para surpresa de todos. Em seguida, Rafael Leão.

Eu não aguentei e sentei no chão. O cansaço foi demais. Ouvi alguém falando que Cristiano Ronaldo iria passar, mas não falaria com ninguém. 2 minutos depois, ele surgiu. Foi no mesmo estilo do Messi (no dia 14), impressionante. Surreal a correria e o desespero de todos.

Ronaldo não para e vai passando sorrindo pela zona mista, que lembra um labirinto ou caracol até acabar já na saída para os atletas irem ao ônibus da delegação. Alguém grita: Pelé. E ele responde: “melhoras a Pelé”.

Então, eu corri para o último vão da zona mista, onde na teoria seria para os colegas de idioma inglês. Ele passando na minha frente, com vários repórteres gritando e Cristiano sorrindo e balançando a cabeça negativamente como quem dizia, não vou responder.

Aí, ele já estava passando por mim, quando eu disse: “Ronaldo, por favor, uma mensagem para Pelé”. Ele voltou, parou, olhou pra mim e falou: “Melhoras a Pelé. Nosso Rei tem que melhorar. É o que todos nós desejamos” e se despediu tocando no meu ombro. Fui quase amassado pelos colegas que me empurraram, chegaram de uma vez e tentaram perguntar também, mas ele já havia saído e ainda respondeu algo caminhando.

Eu fiquei estarrecido, chocado e meio que voando. Em seguida, vários repórteres de outras nacionalidades me questionando o que perguntei? por que ele parou pra mim? O que ele respondeu? A ficha não tinha caído. Eu respondia no automático. As pessoas falando em inglês e eu ariado tentando explicar como aconteceu.

Depois, os colegas brasileiros apareceram, falei com eles e acabei não gravando a conversa. Mas havia percebido que alguém do meu lado havia gravado. Passei uns 10min procurando o repórter. Era um alemão. Eu ainda emocionado, encontrei com ele. Não conseguia falar nada em inglês de tão nervoso que estava. Usei o Google tradutor. Ele me mandou o áudio.

Eu precisava ter certeza que não foi um sonho. E tenho certeza que foi minha querida Vó Mundita, lá do Céu, que ajudou a fazer este sonho se tornar realidade. Depois, a emoção bateu muito forte.

Muito obrigado Vovó, por tudo, e por se despedir com esse presente divino.