Ancelotti anuncia Neymar durante a convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo. Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Houve um tempo em que jornalista que fizesse propaganda de qualquer produto que fosse era tachado de vendido. A TV Globo durante toda sua trajetória no Século XX proibia que as estrelas do seu jornalismo fizessem qualquer tipo de “merchandising”.

Lembro que o consagrado Joelmir Beting (pai do querido Mauro Beting) causou um alvoroço enorme no meio da comunicação ao deixar a Globo e logo em seguida fazer uma propaganda para o Bradesco.

As más línguas falam que Joelmir recebeu com a propaganda o equivalente há uma década de trabalho na emissora carioca.

Em outro debate sobre o tema, Milton Neves e Juca Kfouri também se digladiaram nos bastidores.

Juca não admitia que jornalista sério fizesse merchan, Milton não aceitava tão comentário e ambos alimentaram essa rixa durante anos.

Atualmente, o debate é outro e bem mais complexo. Agora, é até natural, jornalista de qualquer seguimento, esportivo, político, ou econômico, fazer merchan.

Com o enorme crescimento das redes sociais e principalmente com o que se ganha nas plataformas digitais, muitos profissionais de mídia, inclusive vários consagrados no Rádio, na TV e no Jornal, acabaram migrando para esse nicho.

Alguns ainda tentam manter a postura, a seriedade, a imparcialidade e a tão difícil credibilidade.

No entanto, parece haver uma densa confusão sobre o verdadeiro papel do jornalista esportivo.

O crescimento atomizado de perfis e canais relacionados a clubes de futebol fez com que boa parte do público (ou de torcedores) se identificasse com os conteúdos produzidos.

Como o mercado jornalístico foi reduzido de forma drástica. Só para você ter uma ideia, a Folha de S. Paulo, maior jornal do País, em 2006, tinha 15 jornalistas na editoria de esportes. Em 2025, a mesma editoria, possuía apenas 3 profissionais.

Em 2006, o Diário Lance! era um dos maiores jornais do Brasil, e o principal jornal de esportes do País, com redações enormes e publicações diárias no Rio de Janeiro e em São Paulo. Hoje, nem existe mais.

Assim, o mercado não conseguiu absorver a demanda de profissionais que migraram para o mundo digital. E aí, começou a confusão.

Aquele jornalista sério e que esbravejava imparcialidade e cobrava respeito pelo seu árduo trabalho, percebeu o nicho crescente nos perfis relacionados a clubes e abraçou a causa.

Alguns abandonaram a isenção, enquanto outros largaram a credibilidade. Havia, ou melhor, há algo mais potente financeiramente pagando no mundo das redes sociais.

Com isso, o público consumidor das plataformas digitais não consegue mais distinguir o que é jornalismo. E todos os profissionais de mídia parecem ter entrado (muitos sem saber) no mesmo balaio.

Não bastasse muitos atribuírem o jornalismo esportivo ao entretenimento, com tendência para o humor, agora, o holofote é virado para o clubismo.

E quem não estiver nessa caixinha é massacrado por haters de qualquer espécie, até mesmo por quem clama por isenção, quando a análise é sobre o time rival.

Só que o jornalismo esportivo ganhou nos últimos dias mais um debate e dessa vez a polêmica é tão rasa, que faria Joelmir Beting ou Nelson Rodrigues rirem ou se surpreenderem com que acontece. A discussão é sobre os que são contra ou a favor do Neymar.

E essa questão, bem rasa por sinal, é porque uma praga, ou vírus, foi instalada neste país através da política ideológica partidária. Ou você é de direita, ou você é de esquerda.

E como Neymar declarou seu voto e sua preferência a um candidato de direita, no caso Bolsonaro, o caos foi instalado.

O jornalista que crítica Neymar é porque é de esquerda, o jornalista que apoia Neymar é porque é de direita.

E como o ego de muitos jornalistas é maior do que o desejo de fazer jornalismo com isenção, imparcialidade, apuração e credibilidade, o estopim para essa guerra aconteceu na convocação da Seleção Brasileira, na última segunda-feira, 18.

Desde então, são indiretas, diretas, xingamentos, críticas e desrespeito a profissionais, muitos com uma longa e vasta carreira de sucesso, mas que acabaram cedendo ao “lado sombrio da força”.

A questão não é mais quem está certo ou quem está errado, até porque quando o debate, ou a discussão, é sobre as perguntas dos jornalistas e não à resposta do treinador da Seleção, o meio se contaminou, adoeceu e precisa de remédio ou de uma vacina.

Só que o público, o grande interessado em entender e em saber o que realmente está acontecendo, parece estar ficando de saco cheio.

O jornalismo esportivo padece de uma forma que caminha para não conseguir se levantar. Ainda mais quando a política partidária, o clubismo, a busca por likes, a obsessão por engajamento e o ego são maiores que qualquer motivo para reconhecer os excessos e voltar à essência da profissão.

Há ainda quem consiga manter a seriedade, a estrutura, a imparcialidade e a credibilidade. Mas como esse tipo de guerra é produzido por grandes protagonistas, há uma turma que adora, rende muitos likes e quer ver mais e mais batalhas.

O grande problema é: se essa guerra continuar, quem vai morrer é a credibilidade do jornalismo.