O caos no planeta, na saúde, na economia e na vida das pessoas também chegou aos gramados. E assim como a “bolha do futebol” não é diferente das outras bolhas, os mais pobres ficam ainda mais pobres e, claro, são os que mais sofrem com essa tragédia que chega à segunda temporada devastando tudo o que vê pela frente.

Icasa, Crato, Barbalha e Guarany de Sobral são alguns dos vários casos de times do Interior do Estado do Ceará que padecem e se despedaçaram com a pandemia do Coronavírus. Não vou nem citar aqueles que irão disputar neste ano a Série B ou a Série C do Campeonato Cearense.

Sem querer entrar no mérito do trabalho e do profissionalismo das respectivas diretorias, esse não é o intuito deste artigo, mas é mostrar que alguns, se não a maioria esmagadora dos times, vivem verdadeiros suplícios em busca de fazer apenas o básico, jogar futebol.

E diferentemente de clubes de grandes torcidas, com patrocinadores, visibilidade na mídia, as equipes do Interior dependem de prefeituras, do comércio local, de famílias abastadas e principalmente do amor e zelo de uma turma abnegada.

Comecemos pela zona norte. O Guarany. Primeiro clube cearense campeão brasileiro, vice-campeão estadual em 2013, disputou Copa do Nordeste. Foi rebaixado para a Série B local neste ano, após uma péssima campanha na 1ª Fase do Estadual, acabou eliminado da Copa do Brasil para o CSA sem nem fazer frente ao rival alagoano e ainda viu os gestores anteriores deixarem o clube. O Cacique do Vale teve de se socorrer à tradicional família Torquato para tentar sair do abismo e ainda terá pela frente a Série D do Brasileiro agora em junho.

Descendo para o Cariri, o Barbalha, que revelou o centroavante Cleber para o Ceará, chegou a disputar a Copa do Brasil, fez ótima campanha ano passado e se imaginava que iria brigar novamente por algo maior nesta temporada, mas virou o avesso. Entrou numa grave crise financeira e política com suspensão do presidente, ainda teve greve de jogadores e da comissão técnica e acabou também rebaixado à Série B.

Logo ali do lado, ainda no Cariri, o Crato, vice-campeão da Segundona de 2020, sentiu o efeito drástico da pandemia. Abandonou a própria cidade, se desfez de todo o elenco, precisou recorrer a uma parceria com o Tiradentes e mandar os jogos na região metropolitana de Fortaleza. Padece com uma campanha terrível e virou saco de pancadas no Estadual.

Em Juazeiro do Norte a crise bateu de forma dura também. O tradicional Icasa parecia estar se reerguendo novamente. Ano passado, foi campeão da Série B e vice da Taça Fares Lopes. Havia montado um  bom time com uma boa comissão técnica e caminhava a passos largos para conquistar uma vaga à Série D do Brasileiro.

Só que tudo mudou nos últimos meses. Precisou se desfazer do elenco quase que na totalidade, perdeu a comissão técnica e também deixou a região do Cariri para mandar os jogos na região metropolitana da capital cearense. Nesta segunda fase do Estadual, em 4 jogos,  não fez nenhum gol e perdeu todas as partidas que disputou.

O cenário é de terra arrasada. E ainda com os cavaleiros do apocalipse usando a pandemia para acabar com os campeonatos estaduais, a situação só se agrava. É necessário uma grande e intensa reorganização estrutural para que os clubes do Interior consigam pelo menos ficarem de pé.

Anos atrás, longe de qualquer pandemia, clubes de Uruburetama, Russas, Limoeiro, Crateús, São Benedito, Quixadá, Boa Viagem, Aracati e muitos outros tiveram seus momentos de apogeu, mas praticamente desapareceram do mapa do futebol cearense.

É hora de parar de olhar e de falar e começar a agir. Do contrário, o futuro reserva mais dor e sofrimento para aqueles que usam o futebol com amor e zelo.

📸 Antônio Josimar/CratoEC