No livro “O que aprendi sendo xingado na internet”, o jornalista Leonardo Sakamoto fala sobre a estupidez humana e de como as pessoas destilam ódio, sentem facilidade em xingar e muita dificuldade em dialogar. Mas essa ira não é de agora.

No final da década de 1990, Galvão Bueno teve de narrar alguns jogos sob proteção policial, após a Mancha Alviverde ter distribuído aos palmeirenses 50 mil cópias de um manifesto contra o narrador da Globo. No documento, a organizada acusava-o de ser um ‘Gavião Bueno’, em referência à torcida corintiana Gaviões da Fiel. (Segundo os alviverdes), Galvão narrava com mais emoção os gols do maior rival.

Em meados da primeira década dos anos 2000, era comum ir aos estádios cearenses, em jogos envolvendo Ceará e Fortaleza, e ouvir um grito ecoado pelas arquibancadas a cada gol, que o time alvinegro sofria: “eu eu eu eu, a verdinha se fodeu”. Um insulto à emissora Rádio Verdes Mares, que à época puxava mais o lado para o Vozão do que para o Leão.

Com as redes sociais, esses xingamentos e o ódio parecem que foram crescendo com a velocidade da internet. No extinto Orkut, era comum as comunidades criadas para declarar a insatisfação com determinada celebridade. Numa delas, “Eu Odeio o Galvão Bueno”, havia mais de meio milhão de participantes.

No último final de semana, Fortaleza e Ceará jogaram pela Copa do Nordeste, a partida terminou empatada por 1×1. O Clássico-Rei foi transmitido ao vivo pela TV Jangadeiro, afiliada do SBT, no estado do Ceará. O narrador Jussie Cunha expôs em seu perfil no Instagram duas mensagens recebidas por “seguidores” o xingando.

Em seguida, o jornalista fez um texto relatando que as duas mensagens foram as mais leves que recebera e que não queria repercutir ameaças, xingamentos mais pesados e insultos recebidos de todas as formas.

Jussie não é o primeiro e nem muito menos o último que sofre e sofrerá com ataques fortes, duros e ameaçadores nas redes sociais. Recentemente, por coincidência, o irmão dele, Antero Neto, que também é narrador, só que no Sistema Verdes Mares, recebeu mensagens ameaçadoras inclusive à própria família por um comentário discordando de uma fala do ex-treinador do Ceará, Guto Ferreira.

Como bem diz a jornalista Marília Ruiz, “a internet não é terra sem Lei”. Pelo contrário, há Lei e em alguns casos severas para os que tentam intimidar, ameaçar, injuriar ou caluniar jornalistas por opiniões ou narrações sobre futebol. Marília, sempre que pode, publica decisões da Justiça em que os destiladores de ódio são condenados pelas estupidez jogadas nas redes.

Com a atomização das redes sociais, hoje é comum (e até natural) alguém possuir um celular com acesso à internet, baixar um aplicativo, criar um perfil (fake ou não) e concordar ou não concordar com determinada opinião. Porém, o discordar vem recheado de ataques e muitos deles violentos.

Não dá para passar pano para essa gente. Não é possível mais aceitar pessoas usando as redes sociais com o objetivo de intimidar e de ameaçar. Eu sei que não é possível fazer do Instagram, Twitter, Facebook, Youtube ou WhatsApp um Jardim do Éden, mas é possível lutar para que não se torne um inferno.

E é preciso combater essas pessoas, que muitas delas usam perfis fakes, ou pior, usam fotos da própria família ou imagens religiosas, frases de efeito, mostrando ser o que não é e potencializando veladamente o mal na internet.

Como bem escreve Leonardo Sakamoto, em sua obra, é necessário continuar resistindo. Porém, mostrando aos detratores, que a resistência passa pela Justiça, seja com prisão ou indenização.

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