Há uma corrente de analistas e comentaristas que gosta de criticar as entrevistas coletivas de jogadores e treinadores. As falas dos personagens e dos jornalistas geralmente não saem do lugar comum e raramente há algo de muito relevante. Quando acontece algo fora da curva, frequentemente alguém acaba melindrado: ou entrevistado, ou o entrevistador, ou o público.

Nesta sexta-feira, 1, o volante Richardson, do Ceará, saiu um pouco do lugar comum. Fugiu do padrão. O camisa 5 alvinegro, de maneira autêntica, sensata e bastante sincera, expôs alguns pontos que geralmente não são comentados por atletas, ainda mais quando não estão num momento favorável.

Aliás, as redes sociais estão aí para comprovar. Não é o padrão alguém expor frustrações, dificuldades ou atribulações enfrentadas. Pelo contrário, o comum é exibir felicidades, alegria, sucesso ou beleza, mesmo que seja apenas uma cortina de fumaça.

Por isso, as respostas do volante do Vozão devem ser reverenciadas. Não é normal um jogador ir a público e dizer que ainda dói a eliminação que aconteceu há mais de 10 dias. Geralmente o discurso é “isso é passado, o importante é daqui pra frente”.

Ou um atleta, que nem sequer jogou, por opção do treinador, afirmar que ficou quase 3 dias sem conseguir dormir, por uma desclassificação em uma partida decisiva, mas que não valia título ou acesso ou rebaixamento.

Pra completar, Richardson ainda foi bem sincero ao dizer que as fortes chuvas estão dificultando os treinamentos e que ele e os colegas precisam assimilar o mais rápido possível a filosofia do novo treinador, que é diferente do anterior, com pouco tempo de trabalho e sem ter mais margem para errar.

Confira abaixo trechos da entrevista coletiva do volante alvinegro.

“A gente teve 2 treinos inteiros com ele. Muda um pouco a característica, um pouco a filosofia de trabalho que ele enxerga de futebol pro treinador anterior. Então, a gente tem de assimilar isso o mais rápido possível, porque a gente não tem tempo. Não tem margem de erro. Acho que a gente já errou muito dentro dessa temporada. Então, a gente tem de se adaptar o mais rápido possível. Até pelo clima da Capital tem dificuldade. Tem muita chuva, nosso campo dificultou um pouco os treinamentos. Mas a gente está tentando dar o nosso melhor dentro de campo. Acredito que o Dorival dispensa apresentações, pelo currículo que tem, pelos trabalhos por onde passou. É um treinador com vasta história no cenário nacional. Então, acho que vai acrescentar muito para a nossa equipe. A gente tem de assimilar o que ele passa pra gente o mais rápido possível, porque a gente já tem um compromisso muito difícil, muito complicado na terça-feira, e independente dos jogadores que ele possa escolher, a gente precisa estar preparado para fazer um bom jogo. Sem esquecer o que passou. Porque a dor existe não só no nosso torcedor, mas em nós atletas também. É tentar reescrever uma nova história nessa temporada, a partir da terça-feira”.

“É difícil falar quando se tem um resultado negativo. É complicado demonstrar o sentimento para o torcedor, porque às vezes o torcedor acha que, por a gente ser profissional, a gente não sente a dor que ele sente. Mas é o contrário. Apesar de, por escolha do treinador, não ter atuado no último jogo contra o CRB, mas eu fiquei 3 dias, praticamente, sem conseguir dormir direito. Tentando entender o porquê aconteceu, mas eu acredito muito no processo. Eu acredito que a gente tem de ver o lado positivo das coisas. Aconteceu. A gente não pode esquecer, mas é pensar no pós e nós temos essas 3 competições com jogos de qualidade muito elevada, vamos encontrar de novo um campeonato de mata-mata, onde a gente acabou deixando a desejar no início da temporada. Então, é ter muita cabeça fria, é se preocupar com esse processo do dia a dia para a gente chegar com essa mentalidade vencedora, que o Dorival vem falando pra gente. Ter uma mentalidade pra gente fazer bons jogos não só aqui na Capital, mas também fora de casa, que vai ser muito importante. Então, é pensar, focar, jogo a jogo, se fala muito em objetivo no final da temporada, mas eu acredito muito no processo. A gente só consegue coisas grandes vivendo todo o processo. É de dificuldades, é de vitórias, a gente vai entrar no Campeonato Brasileiro que é um dos mais difíceis do mundo e vai ter jogo que a gente vai perder, vai ter jogo que a gente vai empatar, e a gente não vai poder perder a nossa mentalidade, a nossa confiança em todo o plantel que tá aqui. Então, acho que a partir da terça-feira, é tentar absorver o que a gente tá treinando com o Dorival nessa nossa preparação e conseguir fazer um bom jogo e aí, sim, pensar jogo a jogo, competição a competição, fazer o nosso melhor e ver o que a gente vai conseguindo na temporada”.

O Ceará volta a campo na próxima terça-feira, 5, quando estreia na Copa Sul-Americana, em um duelo pra lá de difícil contra o Independiente, da Argentina. O duelo está marcado para as 19h15, no Castelão, e já conta com mais de 40 mil pessoas confirmadas.

📸Wilton Hoots/CearáSC
📸Stephan Eilert/CearáSC
🎥Vozão TV