No trânsito, quando um homem bate o carro, as ofensas, geralmente, vão para o motorista do veículo aliadas a um xingamento: imbecil, doido, barbeiro etc.

Quando uma mulher bate o carro, as ofensas, geralmente, vão para o gênero e a motorista é preterida: “tinha de ser mulher”, “mulher não sabe dirigir” e por aí vai.

É comum o preconceito ser dirigido assim. Quando o Atlético/MG assumiu a liderança do Brasileirão ano passado, alguém leu, viu, ouviu algum comentário assim: “os clubes de Minas (ou do sudeste) estão bem e jogando com personalidade e com um treinador estrangeiro”.

Lembra quando o Vasco também assumiu a liderança do Brasileirão ano passado? Teve alguma citação ao “Rio de Janeiro” ou ao “Sudeste”? Nem perigo, né?

O Fortaleza venceu as duas primeiras partidas e assumiu a liderança da Série A do Brasileiro. Aliás, na rodada de estreia, quando bateu o badalado Atlético/MG, de virada, no Mineirão, a surpresa foi enorme para muitos. No entanto, a surpresa (ou o preconceito) vinha acompanhada de um: “Como é que o Atlético conseguiu perder?” Ou “O Atlético não consegue vencer o Fortaleza, vai conseguir ganhar do Boca Juniors (adversário das oitavas na Libertadores)?

Lembrei de uma história contada pelo Professor Leandro Karnal, ao participar de uma noite de autografo de um livro escrito por um autor cearense. Uma senhora chegou e disse para o escritor: Eu li seu livro, nem parece que o senhor é cearense.

Em seguida, o Fortaleza goleou o Internacional por 5×1 de maneira impiedosa. Aí, a situação só piorou. “Os times do Nordeste estão muito bem. Veja o caso do Fortaleza” ou “O Fortaleza mostra que os times do Nordeste estão se estruturando já faz um bom tempo”.

Quando o Cruzeiro (dono de uma das melhores estruturas do Brasil) foi rebaixado, alguém lembra de a estrutura ter sido citada como motivo para o rebaixamento? Quando o Vasco e o Botafogo caíram para a Segunda Divisão, alguém lembra de ter sido citada de que o futebol do Sudeste (ou do Rio de Janeiro) está em decadência?

Há ainda uns idiotas disfarçados de influencers, comunicadores e até de jornalistas, que viralizaram com um vídeo recheado de preconceito e discriminação que nem vale linhas escritas. Essa turma precisa é de cadeia com uma pesada condenação por racismo e uma multa de algumas dezenas de milhares de reais.

O Fortaleza ou o Bahia ou o Sport ou o Ceará não representam o Nordeste. Eles são do Nordeste. Você acha que o Corinthians representa o Sudeste? Ou que o Flamengo representa o Rio de Janeiro ou o Sudeste? Ou que o Grêmio representa o Sul?

Esses clubes são como qualquer outro que está situado em qualquer outra região deste Brasil. O mérito é deles, não da região. Usar a regionalidade para fazer gracinha e querer elogiar um time nordestino (não cearense ou não o próprio nome do clube) só mostra o tanto de preconceito assolado daqueles que vivem distante da realidade e quem trata os outros do G12 (eixo Sul-Sudeste) de forma distinta.

Somos cearenses, somos nordestinos, somos brasileiros com muito orgulho. Segregar a qualidade ou o defeito de alguém pela região, pelo gênero ou pela raça em alguns casos é crime.

Só pra lembrar que todos têm direito a repensarem, a se corrigirem e a mudarem. Vivemos num País racista e cheio de xenofobia. Alguns sem violência, outros com muita raiva. Aos que querem mudar e aprender, é preciso tolerância, é preciso ensinar. Aos que não querem, a Justiça é o melhor caminho.

📸 Leonardo Moreira/FortalezaEC