A vitória do Fortaleza por 2×1 sobre a Chapecoense, no sábado passado, na Arena Condá, teve não apenas a polêmica do VAR, que anulou o gol do time catarinense e ainda deu pênalti para a equipe cearense.

A comemoração do ala Yago Pikachu ao converter o pênalti e marcar o gol da vitória do Fortaleza colocou em debate o limite do que é permitido no futebol.

O camisa 22 tricolor foi xingado e vaiado pelos torcedores da Chapecoense antes de bater a penalidade. Ao marcar o gol, correu e soltou um beijinho em direção à torcida, que estava nas arquibancadas, atrás da meta.

Foi o estopim para se criar um clima de tensão dentro de campo, com os jogadores da Chapecoense tomando satisfação com o Pikachu, que também foi repreendido pelo colega Wellington Paulista. Começou um tumulto, mas depois a turma do deixa disso conseguiu acalmar os ânimos. Em seguida, o árbitro mostrou amarelo para o ala tricolor.

O relato do juiz na súmula da partida é esse para o motivo do cartão amarelo: “Fizer gestos provocadores, debochados ou exaltados – Provocar torcida adversária na comemoração de gol em favor de sua equipe”.

Infelizmente, quando falam que o futebol está ficando chato, é por essas atitudes dos legisladores e da arbitragem que eu preciso concordar. Pikachu não mostrou o dedo, não fez arminha, não levantou a camisa com frase polêmica, nem desrespeitou qualquer pessoa dentro ou fora da cidade de Chapecó.

Só há uma pessoa na face da terra que pode dizer se o gesto de Pikachu foi de deboche, ele mesmo. O árbitro, um juiz, um diretor ou o presidente da Fifa não tem essa capacidade. É obvio que ele pode mesmo ter querido provocar a torcida. Mas com um beijo? A que ponto chegamos? Se ele fosse no banco de reservas e tivesse pego uma rosa e mostrado, seria provocativo? Se ele tivesse virado um lado do rosto para torcida o xingar novamente, também seria provocativo?

Os defensores do futebol “burocrático”, alegam que Pikachu não precisa se dirigir à torcida adversária para celebrar um gol do próprio time. Não precisar é bem diferente de ser proibido. Uma torcida não precisa xingar um árbitro e a mãe dele e ainda ameaça-lo que vai morrer e nem por isso é considerado infração, mas se chamar um jogador de macaco é crime e o time pode ser punido. Ou seja, há permissões e há proibições.

A regra diz que não pode fazer gestos que provoquem, debochem ou exaltem a torcida adversária. E incluem o beijo. A regra está errada. É preciso mudá-la. O futebol não precisa ser instrumento para um bando de hipócritas que querem usar o esporte como se fosse algo imaculado ou puro.

O futebol não é a mola e nem a palmatória do mundo que vai fazer você ser um santo dentro de campo. Há violência, há desrespeito, há muita coisa errada feita por infratores no gramado, que merecem ser punidos com o rigor da regra, mas não é o gesto de um beijo, nem o de tirar a camisa (outro absurdo) que vão impedir quem deseja fazer o errado.

Quem se sente ofendido ou provocado porque um jogador adversário soltou um beijo, talvez não devesse estar num estádio de futebol, seria melhor estar numa igreja.

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📸Thiago Ribeiro/AGIF/CBF